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[Matéria] O diretor Tom Hooper leva a saga do primeiro homem a mudar de sexo às telas

A-Garota-Dinamarquesa-filme

Quando “A garota dinamarquesa” ainda estava em fase de edição, o diretor britânico Tom Hooper convidou uma grande amiga para assistir ao longa inspirado na história real do pintor dinamarquês Einar Wegener, primeira pessoa a passar pela cirurgia de mudança de sexo, nos anos 1920, transformando-se em Lili Elbe. Hooper disse nunca ter tido dúvidas sobre quem deveria viver Einar e Lili: o também britânico Eddie Redmayne, Oscar de melhor ator neste ano com “A teoria de tudo”. Apesar da certeza, o diretor estava ansioso para ver a reação da amiga. A convidada de honra era Jennifer Whyte, que trabalhou com Hooper como diretora musical de “Les Misérables” (2012). Jennifer é uma transexual. Ao assistir à metamorfose de Einar em Lili, ela ficou sem conseguir falar por alguns minutos e chorou. “Como vocês conseguiram entender tão perfeitamente o que eu senti?”, perguntou ao amigo.

— Para mim, essa foi a mais importante de todas as projeções do filme. As palavras dela significaram tudo para mim — contou Hooper, ganhador do Oscar por “O discurso do rei” (2010).
A história de Lili, um ícone transexual por seu pioneirismo, chega neste fim de semana aos cinemas americanos e europeus (no Brasil, a estreia está prevista para fevereiro). Hooper recriou com delicadeza o conflito de uma mulher que se descobre presa num corpo de homem. A impressionante transformação de Redmayne vem conseguindo reverter as críticas iniciais feitas por ativistas do movimento LGBT, que questionaram o fato de o diretor não ter escalado um transexual. A escolha, diz Hooper, foi movida por uma característica que sempre admirou no ator, que ele define como “um gênero fluido”, além de um desejo de embaralhar as noções historicamente determinadas de sexualidade.


— Todos nós temos uma mistura de masculino e feminino. Não acredito nessa ideia de gênero como uma coisa binária, acho que é uma questão bem mais complexa. Eddie é atraído para o feminino. Ele interpretou meninas em peças da escola e viveu a Viola de Shakespeare (mulher que se veste de homem em “Noite de reis”). Ele já tinha essa linguagem de corpo desde muito cedo. Quis dar-lhe a chance de explorar ainda mais esse lado — explicou Hooper, em entrevista ao GLOBO por telefone. ATRIZ É “ARMA SECRETA” DO LONGA Redmayne pode conseguir sua segunda indicação consecutiva ao Oscar em mais um drama sobre uma mudança física e psicológica, depois de sua interpretação do astrofísico Stephen Hawking. Mas ele não é o único trunfo do filme. O longa não foca apenas em uma, e sim em duas garotas dinamarquesas: Lili e Gerda Wegener, esposa de Einar, interpretada pela sueca Alicia Vikander, descrita pela crítica britânica como “a arma secreta” de Hooper.


Gerda — pintora que ajudou a revolucionar a maneira como as mulheres eram retratadas na primeira metade do século XX — apoiou o marido em sua luta para assumir a nova identidade. Sem a ajuda da mulher, pouco preocupada em seguir convenções sociais, Lili talvez não tivesse tido a chance de existir numa sociedade em que os médicos interpretavam o caso de Einar como perversão ou esquizofrenia.
— É uma história de amor, de um casamento atravessando uma mudança profunda com grande compaixão, gentileza e amor incondicional. Na época não havia registros científicos ou apoio para essa transição. Gerda ajudou a abrir esse espaço, mesmo sabendo que perderia o marido — diz Hooper, que elogia a atriz principal. — Alicia tem a força e a espontaneidade das escandinavas. Conseguiu fazer duas coisas muito difíceis: não transformou Gerda em vítima e fez de sua bondade algo interessante.


No início do filme, Einar e Gerda formam um casal alegre e cúmplice em Copenhague, onde vivem de arte e mantêm uma vida sexual ativa. A angústia do pintor é revelada de forma sutil. O figurino masculino inclui um colarinho alto que reprime os movimentos do personagem, por exemplo. Quando a mulher pede que o marido pose para ela para que possa terminar o retrato de uma bailarina, Einar usa pela primeira vez peças femininas. O que começa como um aparente jogo sexual do casal leva o pintor a se vestir de mulher para acompanhar Gerda a uma festa. E, assim, Lili, que sempre existiu, vai gradualmente se impondo. EXPLOSÃO DE CORES EM PARIS O visual do filme reforça a transição. Copenhague é retratada pela câmera de Hooper em tons austeros, de azul e cinza. Para compor a fase inicial da vida do casal, o diretor, mais uma vez, recorreu a uma amiga transexual, a diretora Lana (ex-Larry) Wachowski, que assina a trilogia “Matrix” com o irmão Andy. Lana, grande conhecedora da história de Lili, deu a definição que guiou as lentes de Hooper. Segundo ela, “os quadros de Einar eram como pequenos caixões nos quais ele enterrava sua identidade”. Havia algo faltando, e os quadros, paisagens pouco pessoais, revelavam isso. Já Paris, onde Gerda brilha tendo Lili como sua principal modelo, é vista sob uma explosão de cores.


— A revolução da art noveau serve como pano de fundo para a emergência de Lili — explica Hooper. Odiretor leu o script, baseado no romance de mesmo nome de David Ebershoff, em 2008, e se emocionou. Já estava produzindo “O discurso do rei” e, depois, mergulhou em “Les Misérables”, que contava com Redmayne em seu elenco de estrelas. Durante um intervalo das gravações do musical, entregou o texto ao ator, mas foram necessários mais alguns anos até o projeto sair do papel. Não foi fácil conseguir financiamento para um filme sobre uma transexual, embora a TV venha dando mais visibilidade à causa através de nomes como Laverne Cox, da série “Orange is the new black”, e Jamie Clayton, de “Sense 8”.
—É um filme de amor, mas também é sobre inclusão, na medida em que isso exige que as pessoas abram o coração para quem é marginalizado. Acompanho essa crise dos refugiados na Europa e penso nisso: as pessoas fecham o coração e não enxergam o outro — analisa.

GRAÇAS A UM MENINO

Aos 43 anos, o diretor pode ver mais um de seus filmes na corrida pelos maiores prêmios do cinema. Foi um sonho que começou quando ele tinha 12 anos. Hipnotizado pelos filmes que assistia em Leicester Square, Londres, decidiu que seria diretor. Aos 14 ganhou o primeiro troféu, numa competição para jovens cineastas promovida pela BBC.

— Penso nesse menino todos os dias. E todos os dias agradeço a ele — revela.

“Não acredito nessa ideia de gênero como uma coisa binária, acho que é uma questão bem mais complexa”
Tom Hooper – Diretor

Fonte Jornal O Globo

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Sobre Bruno Vieira (761 artigos)
Estudante de Comunicação Social – Publicidade, tem 27 anos e adoraria se lembrar do primeiro filme que viu em sua vida, mas o que passa em sua mente são flashs de sessões da tarde, com muitas aventuras, romances e filmes de terror da década de 80 e 90. Aprendeu a amar e se emocionar ( e tem prazer em chorar ) com o gênero drama. Gosta de comédia e ação e adora musicais e fantasia. Outro amor são as animações, filmes de heróis e tudo aquilo que faça qualquer um viajar com o poder da imaginação. Se identifica muito com o personagem Woody (Toy Story) pelo o quanto ele valoriza e faz pelas amizades. Um herói? Claro… O Homem-Aranha.

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