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[Matéria] ‘O quarto de Jack’: CONTO DE MÃE E FILHO

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Dos horrores que habitam o imaginário coletivo, figura entre os mais temidos a possibilidade de ser confinado num espaço restrito durante anos, privado da liberdade e do convívio com outras pessoas, enquanto abusos sexuais se tornam frequentes. Não à toa, o austríaco Josef Fritzl ficou conhecido como “o monstro de Amstetten” por ter submetido a própria filha a repetidos estupros no porão de sua casa por mais de duas décadas, chocando o mundo quando o caso veio à tona, em 2008.

Esse é um dos episódios reais que inevitavelmente vêm à mente quando se conhece o enredo de “O quarto de Jack”, longa-metragem indicado a quatro Oscars, incluindo o de melhor filme, em cartaz desde quinta no Brasil. Mas a história não foi inspirada num caso verídico em particular, como explica a roteirista irlandesa Emma Donoghue, também autora do best-seller “Quarto” ( Verus Editora), que deu origem à produção.
— O caso das crianças nascidas numa situação de sequestro, e aí falo especificamente de Fritzl, foi só o gatilho — diz, em entrevista por e-mail, Emma, que concorre à estatueta de melhor roteiro adaptado. — Mas a importância da moralidade e dos altos e baixos da maternidade foi o que realmente inspirou essa história.
A trama de “O quarto de Jack” é dividida em duas partes. A primeira é ambientada inteiramente no cômodo em que Joy (Brie Larson, favorita ao Oscar de melhor atriz na cerimônia que acontece em 28 de fevereiro) vive há sete anos, desde que foi sequestrada por um homem identificado apenas como “Velho Nick”. O quarto é tudo que seu filho de 5 anos (Jacob Tremblay), fruto de um estupro cometido pelo raptor, conhece como realidade. Suas únicas referências externas vêm dos programas de televisão a que assiste. Ao mesmo tempo, a mãe tenta criar uma rotina de exercícios e passatempos improvisados para simular uma atmosfera de normalidade. Quando a dupla finalmente consegue escapar do cativeiro após um plano de fuga, tem início o segundo ato, em que eles passam a se adaptar (de forma conturbada) à enormidade do mundo.


REALISMO EM SITUAÇÕES EXTREMAS
Apesar do tema extremamente sombrio, o diretor Lenny Abrahamson (da comédia dramática independente “Frank”, de 2014) deixa a delicadeza da relação entre mãe e filho dar o tom do filme. Cenas de violência e abuso sexual são relegadas a segundo plano ou apenas sugeridas.
Uma estratégia essencial para evitar o sensacionalismo, tanto no livro quanto nas telas, foi contar a história sob o ponto de vista da criança. As raras sequências em que o Velho Nick entra no quarto, por exemplo, são filmadas de dentro do guarda-roupa em que Jack dorme.
— Isso me permitiu driblar o horror do crime, porque a mãe tentou criar um ambiente normal e proteger o filho de tudo isso ao longo dos anos. Além disso, focar numa história sobre infância, e já iniciá-la após cinco anos de cativeiro, ajudou a reduzir o peso do crime. Em outras palavras, nunca quis que o sequestrador determinasse a narrativa — explica Emma. — Jamais cogitei contar essa história de uma forma diferente. Isso resultou em algumas dificuldades técnicas, como transmitir pedaços de informações ao público. Mas garantiu um ângulo original tanto nos momentos que se passam dentro do quarto quanto fora dele.
As lentes de Abrahamson, indicado ao Oscar de direção, também tentam refletir o estado psicológico de Jack. Isso fica particularmente evidente na cena da fuga, em que a confusão mental do garoto é traduzida em movimentos de câmera trêmulos e tortos, além de sons distantes e abafados.
Um dos fatores que chamaram a atenção da crítica é o realismo com que os personagens reagem a cada uma das situações extremas. Para compor a personagem, Brie Larson se isolou por um mês e seguiu uma dieta restrita para ter uma noção do que significa um confinamento forçado. Jacob Tremblay, de apenas 9 anos, também recebeu elogios (e um prêmio Critics Choice de melhor ator mirim, no mês passado) por transmitir com naturalidade a inocência e o gradual desenvolvimento de Jack em direção a uma infância normal.
— Não existe nenhum Jack na vida real, no sentido de que a maior parte das crianças que cresceram num cativeiro carregam sequelas e danos permanentes. Ele representa uma exceção, o melhor cenário possível — ressalta Emma. — No entanto, para escrever e dar autenticidade ao romance, eu pesquisei o assunto o mais profundamente possível. Li sobre mães e filhos que vivem em prisões, sobre refugiados e sobre jovens autistas. Cada uma dessas experiências têm paralelos com Jack e sua mãe.
A autora diz que adaptar o seu próprio livro em um roteiro de cinema não foi mais desafiador do que se debruçar sobre qualquer outra obra:
— Claro, foi difícil escolher o que incluir e o que tirar do roteiro, mas, em geral, foi divertido recontar a história através de ferramentas completamente diferentes. Teria sido muito semelhante se eu estivesse adaptando o romance de outra pessoa.

Reprodução Jornal O Globo

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Sobre Bruno Vieira (760 artigos)
Estudante de Comunicação Social – Publicidade, tem 27 anos e adoraria se lembrar do primeiro filme que viu em sua vida, mas o que passa em sua mente são flashs de sessões da tarde, com muitas aventuras, romances e filmes de terror da década de 80 e 90. Aprendeu a amar e se emocionar ( e tem prazer em chorar ) com o gênero drama. Gosta de comédia e ação e adora musicais e fantasia. Outro amor são as animações, filmes de heróis e tudo aquilo que faça qualquer um viajar com o poder da imaginação. Se identifica muito com o personagem Woody (Toy Story) pelo o quanto ele valoriza e faz pelas amizades. Um herói? Claro… O Homem-Aranha.

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