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[Especial] Os 10 Mandamentos (1956)

Um novo filme sobre a vida e a saga de Moisés esta em cartaz nos cinemas. A novela da Record que recebeu uma enxugada para caber em 2 horas de projeção e tem quebrado recordes nacionais, contudo sem traçar comparações, se fez necessária uma revisita a grande obra prima de Cecil B. De Mille, realizada há quase 60 anos, que de fato, levou multidões as salas de cinema em todo mundo.

Cecil B. DeMille

“Por que gosto de filmar dramas bíblicos? Bom, a Bíblia sempre foi um Best Seller ao longo dos séculos, logo, por que eu iria desperdiçar dois mil anos de publicidade gratuita?” – de fato, Cecil B. DeMille (1881-1959) não estava blefando quando divulgou isso em suas memórias. Seu último grande espetáculo épico, OS DEZ MANDAMENTOS (The Ten Commandments), em 1956, arrecadou somente nas bilheterias americanas 43 milhões de dólares.

A Primeira versão de OS DEZ MANDAMENTOS, dirigida pelo mesmo cineasta CECIL B. DeMILLE, em 1923

É correto dizer que com o cinema de Cecil B. De Mille, a Sétima Arte descobriu como a fé além de remover montanhas, também poderia produzir o milagre da multiplicação de renda. Em verdade, o mesmo diretor em 1923 já havia produzido e dirigido a mesma saga da libertação dos hebreus rumo a Terra Prometida, com Theodore Roberts (1861-1928) no papel de Moisés. Entretanto, esta versão era mais voltada para o tema moral do título, tanto que é dividida em duas partes: um prólogo contando brevemente a história de Moisés, desde as pragas do Egito, a morte do primogênito do Faraó, até o recebimento das Tábuas da Lei, e tudo isso num espaço de uma hora de filme; e um conto moral nos tempos contemporâneos, uma parábola sobre o bem e o mal, personificado por dois irmãos, numa clara alusão de Caim e Abel da Bíblia.

DeMille entrou para a História como sinônimo de espetáculo no sentido literal da palavra. Há muito, o cineasta sonhava em realizar o remake de “Os Dez Mandamentos” de maneira esplendorosa, mas para isso, precisava de ajuda dos executivos da própria Paramount, estúdio este que o próprio diretor ajudara a fundar. Um belo dia, DeMille se dirigiu à mesa dos “cartolas” da Paramount, e disse: “Vejam bem, eu faço o que me pedem durante anos. Já trouxe boa bilheteria para esta empresa, e agora é minha vez de vocês me ajudarem. Vou fazer um novo filme sobre os Dez Mandamentos e será filmado no Egito, e não sei quanto vai custar, mas quero que me deem cada centavo a investir ou nunca mais faço um filme para este estúdio”.

E novamente, o veterano cineasta não estava blefando. Cumprido o trato por parte da Paramount, DeMille começou a por mãos na massa, superando seus habituais excessos. Tornou-se o filme mais caro da história da Paramount, custando 13,5 milhões de dólares, mas acabou se tornando o maior êxito comercial do estúdio, que faturou 43 milhões de dólares só no mercado norte-americano.

Tornou-se também o mais longo filme da carreira de DeMille, 220 minutos (a versão de 1923 tinha 136 minutos), e o último de sua longa trajetória. E de quebra, a versão de 1956 concorreu a sete Oscars (inclusive de melhor filme), mas acabou somente ganhando por efeitos especiais, obra do competente John P. Fulton (1902-1966), que curiosamente, já havia colaborado com DeMille na versão de 1923, onde repetiu com os mais modernos efeitos especiais possíveis para 1956, a proeza de dividir o Mar Vermelho, para que o grande líder Moisés (vivido por Charlton Heston, que conforme a apreciação de DeMille, era idêntico ao Moisés de Michelangelo) pudesse escapar com seu povo do exército do faraó Ramsés (Yul Brynner, 1915-1985) e atingir o Monte Sinai.

No seu “canto de cisne”, Cecil B. DeMille, contando com mais de 70 anos de idade, investiu em uma grande aventura ao ingressar pelos escaldantes desertos do Egito e escalar montanhas com seu superelenco e seus 25 mil extras. Durante a filmagem de uma das cenas no deserto, DeMille sofreu um enfarte, mas não largou a produção. Em verdade, foi o sucesso de outro espetáculo bíblico do diretor, Sansão e Dalila, realizado em 1949 que motivou DeMille a uma remontagem da saga de Moisés.

Charlton Heston, sua esposa Lydia, e o pequeno Fraser, filho do ator, brincando com Cecil B. DeMille.

A primeira escolha para interpretar Moisés na segunda versão de DeMille foi o astro cowboy William Boyd (1895-1972), velho amigo do diretor e famoso por ser o destemido herói cowboy Hopalong Cassidy em dezenas de faroestes B das décadas de 1930 a 1950, entretanto ele recusou. Logo, veio a ideia do diretor em escolher um jovem e promissor ator com quem trabalhara dois anos antes, em um outro espetáculo que rendeu a ele não somente boa bilheteria, mas também o Oscar de melhor filme de 1952: O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show on Earth). Este jovem era Charlton Heston, no esplendor de sua forma física aos 30 anos, casado e com um filho recém-nascido (que fez participação no filme como sendo o “bebê Moisés” encontrado pela filha do faraó, e que se tornaria o diretor Fraser Clark Heston). Além disso, Heston já era um ator contratado pela Paramount.

DeMille e o compositor ELMER BERNSTEIN

Inicialmente, o responsável pela trilha sonora de Os Dez Mandamentos seria Victor Young (1899-1956), que trabalhava com Cecil B. DeMille desde 1940, e para ele, compôs a bela trilha de Sansão e Dalila, em 1949. Entretanto, Young não pôde aceitar o convite para este novo trabalho, devido a motivos de saúde (pouco tempo depois, ele morreria por problemas de um acidente vascular cerebral), o que abriu espaço para a contratação do jovem Elmer Bernstein (1922-2004), que ficaria célebre em muitas outras composições para a Sétima Arte.

DeMille e sua equipe fez um estrondoso trabalho de estudo e pesquisa para a elevação desta obra cinematográfica, pois foram analisados 1.900 livros, colecionando 3.000 fotos, além de pesquisas em mais de 30 bibliotecas nos Estados Unidos, Europa, África e Austrália. DeMille ainda visitou o Vaticano para algumas pesquisas e avistou a famosa estátua de Moisés, de autoria de Michelangelo. Ele viu uma ligeira semelhança entre a famosa escultura renascentista com a fisionomia do ator Charlton Heston, e de fato, chega a ser verdadeiramente impressionante.

O Príncipe Moisés (Heston) e seu irmão adotivo, e inimigo, o Príncipe Ramsés (Yul Brynner)

Teste de visual de Heston para compor Moisés em sua fase de Príncipe do Egito. DeMille sugeriu que fosse raspada a cabeça do ator conforme a cultura egípcia, contudo não foi avante.

“Chuck” levantando seu filho Fraser, que se prepara para viver o bebê Moisés aos três meses de idade

Rodado no Egito e em estúdios de Paris e Hollywood, a também no México, as filmagens começaram em outubro de 1954 no Sinai e a montagem consumiu nove meses. Só um ano foi à preparação do roteiro, escrito a seis mãos. O fotógrafo Lloyal Griggs (1906-1978), o mesmo de Shane (Os Brutos Também Amam, de George Stevens, 1953), movimentou quatro câmeras Panavision frente a doze mil extras para a sequência do Êxodo. Além disso, foram usados doze estúdios em Paris e outros dezoito em Hollywood antes que todo filme rodado ainda ficasse nove meses nas salas de montagem até que pudesse estrear, enfim, a 5 de outubro de 1956, nos Estados Unidos.

A Noite de Estreia de OS DEZ MANDAMENTOS, em outubro de 1956- Charlton Heston e Cecil B. DeMille recepcionam Clark Gable.

CECIL B. DeMille junto a seus dois astros principais: Yul Brynner e Charlton Heston.

OS DEZ MANDAMENTOS foi uma ocasião de grande evento em seu lançamento nos Estados Unidos. Os jornalistas ansiosos e extasiados perante tal monumento a cinematografia mundial, logo perguntaram a DeMille qual seria seu próximo projeto. O diretor, de 75 anos de idade, respondeu: “Um outro filme…ou outro mundo!”.

DONALD O’ CONNOR visita Charlton Heston durante as filmagens em Hollywood

De fato, o que seria seu último projeto, em 1958, e curiosamente também um remake de um de seus grandes trabalhos, Lafite, o Corsário, realizado pelo diretor em 1938, o cineasta não pôde sequer prosseguir devido a seus problemas cardíacos, entregando a direção da nova versão ao seu então genro, o ator Anthony Quinn. Cecil B. DeMille morreria a 21 de janeiro de 1959, aos 77 anos de idade, e sua história mesmo se confunde com a própria origem do cinema.

Este grande espetáculo se inicia quando o Faraó Ramsés I (Ian Keith, 1899-1960), ordena a matança dos meninos recém-nascidos para evitar o nascimento de um libertador. Uma mulher, Yochabel (Martha Scott, 1912-2003) salva seu filho que é adotado pela irmã do faraó, Bitiah (Nina Foch, 1924-2008), e cresce como herdeiro do trono.

Sentado, o faraó Sethi (Sir Cedric Hardwicke) observa os filhos em competição.

Sephora (Yvonne DeCarlo), a esposa de Moisés

Moisés e seu sogro, o pastor e sacerdote Jethro (Eduard Franz)

Torna-se este menino Moisés (Charlton Heston), braço-direito de Sethi (Cedric Hardwicke, 1893-1964), enciumando o filho legítimo deste, Ramsés (Yul Brynner, em um desempenho fantástico). Descoberta sua origem hebraica graças às conspirações de Ramsés, Moisés é banido da corte. Casa-se com Séphora (Yvonne De Carlo, 1922-2007), filha do pastor Jethro (Eduard Franz, 1902-1983). Anos depois, Moisés recebe do Sinai a missão divina de voltar ao Egito e libertar o povo hebreu da escravidão.

A Abertura do Mar Vermelho – Oscar de efeitos especiais

Apesar de todas as excentricidades, DeMille era generoso com colegas e amigos de profissão, e chamou muitos deles para participar da refilmagem de seu filme, como a atriz Julia Faye (1893-1966), que participou na primeira versão no papel desempenhado por Anne Baxter (1923-1985) aqui na segunda – como também o ator H.B.Warner (1876-1958), que participa aqui em seu último filme. Warner interpreta um senhor de idade que pede para morrer durante a sequência do êxodo dos hebreus pelo deserto. Ele foi o Cristo de O Rei dos Reis (The King of Kings), outra obra do cineasta realizada em 1926.

Edward G. Robinson é Dathan, o vilanesco renegado hebreu

Nefretiri (Anne Baxter) – apaixonada por Moisés

Josué (John Derek) e sua amada Liliam (Debra Paget)

Vincent Price é Baka, engenheiro egípcio, morto por Moisés

Woody Strode, como o Rei da Etiópia

Elenco all-star em que despontam ainda Edward G. Robinson (1893-1973) como o renegado Dathan; Vincent Price (1911-1993) como Baka, que é morto por Moisés; Anne Baxter (1923-1985) como a Rainha Nefretiri; John Derek (1924-1998), no papel de Josué; Debra Paget, como Liliam, esposa de Josué; A Dama do Teatro americano Judith Anderson (1897- 1972), como Memnet; John Carradine (1906-1988) como o irmão de Moisés, Aaron; Douglass Drumbille (1889-1974) como o sacerdote egípcio Jannes; e Olive Deering (1918-1986) no papel de Miriam, irmã de Moisés. Detalhes para as participações de Woody Strode (1914-1994, este em dois papéis, um como o Rei da Etiópia e outro como um escravo), Robert Vaughn e Clint Walker.

No Brasil, OS DEZ MANDAMENTOS ficou em cartaz por quase 20 anos seguidos em salas de cinema por todo o Brasil (estreou no Brasil a 4 de janeiro de 1957 e em 1983 foi exibido no extinto Cine Vitória, no centro do Rio de janeiro), sempre em reprises nas épocas de Semana Santa, Páscoa ou Natal. Uma fita eletrizante que chama a atenção até os dias de hoje, graças ao esplendor de um grande cineasta, um roteiro inteligente, e um elenco que celebra o glamour da época dourada de Hollywood.

FICHA TÉCNICA
OS DEZ MANDAMENTOS
Pais:Estados Unidos
Ano: 1956
Gênero: Bíblico, Épico, Drama
Direção: Cecil B. DeMille
Roteiro: Aeneas MacKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric Frank
Produção: Cecil B. DeMille
Música Original: Elmer Bernstein
Coreografia: LeRoy Prinz, Ruth Godfrey
Fotografia: Loyal Griggs
Edição: Anne Bauchens
Direção de Arte: Hal Pereira, Walter H. Tyler, Albert Nozaki
Guarda-Roupa: Edith Head, Charles Davies e outros
Maquiagem: Wally Westmore, Frank McCoy, Frank Westmore
Efeitos Sonoros: Harry Lindgren, Gene Garvin, Louis Mesenkop
Efeitos Especiais: William Sapp, Charles Davies e outros
Efeitos Visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton

Fonte: Filmes Antigos

 

 

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1 comentário em [Especial] Os 10 Mandamentos (1956)

  1. André Souza // 06/04/2016 às 12:01 // Responder

    Caramba me deu mais vontade de ver este do que o da Record! e interessante saber que o problema entre Produção e Cineasta ocorre desde de sempre obrigando o cara a colocar o estúdio na parade!!!!! muitooo Maneira a matéria Rodrigo!

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