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[Especial] Trilogia Um Drink no Inferno

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Puteiros, zonas, night-clubs, inferninhos, cabarés… São vários nomes e apelidos para aquelas suspeitas “boates” onde moças deliciosas ficam dançando de topless enquanto outras vêm se esfregar nos clientes, oferecendo seus corpos e uma noite de luxúria em troca da devida soma em dinheiro…

Talvez estas casas noturnas sejam a melhor definição, como o próprio nome “casa noturna” já diz, de uma atividade realizada somente à noite, nas trevas, e que não tem seu lugar à luz do dia. São casas que funcionam estritamente do crepúsculo (anoitecer) até o nascer do sol. Ou, em bom inglês, From Dusk Till Dawn.

Quer lugar melhor que esse para esconder uma horda de vampiros sanguinários?????

Pois é… Um diretor americano chamado Richard Wenk pensou nisso e, em 1986, realizou um divertido filme de horror misturado com comédia chamado Vamp (sendo que o título foi até chupado naquela famosa novela da Globo sobre Vampiros). O filme, na verdade um “terror teen” entre muitos daquele período, mostrava os apuros de três jovens universitários que vão para um puteiro em busca de diversão e descobrem que todas as prostitutas do local são vampiras sedentas de sangue.

O diretor picareta Fred Olen Ray (o mesmo de obras-primas como Hollywood Chainsaw Hookers) também percebeu o potencial da combinação de luxúria e vampiros, lançando em 1988 uma podreira chamada A Vampira de Beverly Hills – onde, novamente, um grupo de jovens paspalhões vai para a zona, enfrentando a fúria das prostitutas-vampiras.

Os dois filmes até têm seus bons momentos, mas a mistura entre “strippers vampiras gostosas“, um cabaré demoníaco e muito sangue, risos e diversão trash só atingiu o ápice com um filme chamado, justamente, From Dusk Till Dawn (“Do Crepúsculo ao Amanhecer”), lançado no Brasil com o esquisito, mas até apropriado, título de Um Drink no Inferno.

Concebido por uma das dobradinhas mais criativas surgidas no cinema independente americano até então – o diretor Robert Rodriguez, de El Mariachi, e o também diretor, aqui roteirista e ator,Quentin Tarantino, de Pulp Fiction -, Um Drink no Inferno foi realizado em 1996 e se tornou um enorme sucesso de bilheteria, talvez mais até do que esperavam seus realizadores.

O grande segredo de Rodriguez/Tarantino é que a ideia de fazer um filme de terror podreira é elevada à enésima potência. Não basta apenas colocar vampiras gostosas arrancando braços e cabeças, é preciso fazer de conta que aquilo é um filme sério (e o roteiro realmente consegue enganar o espectador durante a primeira uma hora de projeção), e então de repente avacalhar com tudo.

Por isso, quando a história correta e realista de dois irmãos criminosos fugitivos, Seth e Richard Gecko, ultrapassa a fronteira do México, Um Drink no Inferno deixa de lado a trama policial que desenvolveu nos primeiros 60 minutos e cai de boca no trash, mostrando a dupla e seus reféns chegando a um puteiro, o Titty Twister (isso mesmo, o bar se chama “Torcedor de Tetas“), onde todas as vagabundas são vampiras sanguinárias, de olho não no dinheiro dos seus clientes, mas sim no seu sangue.

Assim que uma delas, já exibindo seus caninos salientes, anuncia “O jantar está servido“, o espectador é mergulhado numa orgia de sangue, tiros, estacas no coração, abobrinhas, mortes exageradas, gosma verde, sensualidade, bobagens diversas, atores legais e músicas do caralho. Ou seja, o ápice daquilo que pode ser considerado um “filme cool“, ou um filme muito legal, que na história do cinema provavelmente não vai fazer qualquer diferença, mas que diverte tanto que acaba se tornando um “clássico” pessoal de muitos espectadores.

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A Segunda Dose

Esta é a tradicional sequência fraca de um sucesso do cinema. Não tem como escapar dela. É praticamente uma maldição.

Sabe aquela continuação feita às pressas para tentar ganhar dinheiro em cima do sucesso de um filme legal? Pois bem, aqui temos mais uma delas: Um Drink no Inferno 2 – Texas Sangrentos é bem fraco, apesar de ter Tarantino e Rodriguez, a dupla responsável pelo filme original, como produtores-executivos.

Com o sucesso estrondoso (e um tanto quanto inesperado) do primeiro filme, a Dimension pediu que Tarantino e Rodriguez sugerissem argumentos para duas continuações que seriam realizadas diretamente para vídeo, por outros diretores e por um custo bem menor (cerca de 10 milhões de dólares cada).

Tarantino surgiu com uma ideia envolvendo assaltantes de banco que viram vampiros (e que daria origem a este segundo filme); Rodriguez preferiu sugerir uma “prequel” que se passasse no Velho Oeste, nos primórdios do Titty Twister (ideia aproveitada no terceiro filme, bem superior, ainda que praticamente uma refilmagem do original, mudando os personagens e a ambientação apenas).

O maior erro de Um Drink no Inferno 2 foi espichar demais a história (que quase não existe) e ainda por cima levá-la muito a sério – algo que o primeiro filme não fazia em momento algum. E tem bem poucas novidades, além do que já foi mostrado no original.

Veja só: assim como o primeiro filme, o roteiro deste também trata de ladrões às voltas com vampiros. A diferença é que não há o duelo sangrento dentro do bordel dos vampiros, o Titty Twister. O filme também reduz o tempo entre o encontro com os vampiros e a matança (que no primeiro e no terceiro filmes consomem praticamente uma hora).

É mais ou menos assim: um grupo de bandidos americanos se reúne para assaltar um banco no México – o que me leva a pensar no porquê do subtítulo original, de Dinheiro Sangrento no Texas(Texas Blood Money). O grupo é formado por Buck (Robert Patrick, o inesquecível cyborg de O Exterminador do Futuro 2), Luther (Duane Whitaker, famoso por ter estuprado Ving Rhames na cena mais chocante de Pulp Fiction), o veterano C.W. (Muse Watson, que interpretou o assassinoBen Willis na série Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado), o bobão Ray Bob (Brett Harrelson, irmão do astro Woody Harrelson) e Jesus (Raymond Cruz, de Alien, a Ressurreição).

Os bandidos são completamente esteriotipados: Buck é aquele tipo que tenta levar uma vida honesta e tem um xerife pentelho, Lawson (Bo Hopkins, especializado em papéis de xerife e militar em dezenas de filmes B), sempre no seu pé. Luther é o psicopata do grupo, semelhante ao Richard Gecko interpretado por Tarantino no original. Não se sabe o que Ray Bob, sem qualquer experiência em crimes, está fazendo no grupo, enquanto C.W. aparenta ser um criminoso experiente e Jesus é um brutamontes que treina buldogues para lutas de cães, dando-lhe anabolizantes e fazendo com que ele corra na esteira. Ah sim, o nome do cachorro é “Tubarão 2” (Jaws 2). Sentiu o drama?

O grupo se prepara para o que seria um assalto simples. Enquanto quatro deles ficam num motel esperando, jogando conversa fora e irritando o espectador com diálogos idiotas, o quinto (Luther) vai parar no conhecido “barTitty Twister, depois de atropelar um morcego na estrada, o que danifica seu carro. Percebe-se, logo de cara, que o interior do bar está diferente e provavelmente foi reformado depois que Seth Gecko e seus amigos o destruíram por completo no final do Um Drink no Inferno original. Sai a decoração gótica e satânica, entrando elementos mais comuns, como calotas de carros. Mas as putas vampiras continuam ali. Pena que elas quase não aparecem…

No balcão, Luther encontra Razor Eddie (Danny Trejo), aparentemente o irmão gêmeo de Razor Charlie, o barman que aparece no primeiro e no terceiro filmes (onde também é interpretado pelo feioso Trejo). Ao saber que Luther atropelou um morcego, o barman pede que o bandido o leve até lá. Chegando ao local, Luther descobre que o “morcego” na verdade é um vampiro, Victor, amigo de Razor Eddie, que se vinga mordendo o pescoço do descuidado motorista.

Devidamente transformado em vampiro, Luther vai encontrar os parceiros no motel. Antes, contamina uma vagabunda, Lupe (a gostosa Maria Checa, que foi coelhinha da Playboy), e esta por sua vez vai dar aquela dentada básica em Jesus, e por aí a contaminação vai se espalhando ao restante do bando. Mesmo transformados em vampiros, os bandidos resolvem assaltar o banco. É claro que haverá um sangrento confronto com policiais e com os integrantes do grupo que ainda não viraram sanguessugas.

Numa tentativa de repetir o humor amalucado do filme original, Um Drink no Inferno 2 abusa de idiotices em geral, que mais subestimam a inteligência (e a paciência) do espectador do que propriamente fazem rir.

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A Saideira

Depois do fiasco da segunda parte, este Um Drink no Inferno 3 – A Filha do Carrasco é um verdadeiro colírio para os olhos, contrariando aquela tradição de que o terceiro filme é sempre o pior – lembra de Hellraiser 3, A Profecia 3, Amityville 3, Sexta-feira 13 Parte 3, Halloween 3,Pânico 3, O Massacre da Serra Elétrica 3, Poltergeist 3, O Exorcista 3, O Retorno de Jedi, O Poderoso Chefão 3, De Volta para o Futuro 3, Indiana Jones e a Última Cruzada, Máquina Mortífera 3, Superman 3, Tubarão 3 e uma pá de outros filmes fraquinhos com o cabalístico número 3 no título????

Na verdade, enquanto rolam os créditos de abertura, esqueça que o nome do diretor é um tal deP.J. Pesce. Faça de conta que é Robert Rodriguez, o diretor do filme original, que está de volta à ativa. Pois do jeito que está lembra tanto o estilo narrativo frenético e as gracinhas de humor negro da dupla Rodriguez/Quentin Tarantino que quase nem deixa saudades do primeiro filme.

Os desavisados podem achar estar diante de uma refilmagem do original, apenas deslocada da ambientação nos tempos modernos para 100 anos atrás, no Velho Oeste sem lei. Como eu adoro filmes de bangue-bangue e sempre achei que nunca foi feito um filme de horror interessante passado nos tempos dos xerifes e pistoleiros, Um Drink no Inferno 3 é uma verdadeira preciosidade, que veio preencher esta lacuna “sobrenatural” no Velho Oeste americano.

Assim como no original, este filme começa sério, como um verdadeiro western (apesar de algumas brincadeiras sanguinolentas). Tem enforcamento, tiroteios, desavenças entre pistoleiros inimigos, duelos, assaltos à diligência, enfim, tudo aquilo que estamos acostumados a ver nos velhos filmes de bangue-bangue. Nenhuma menção a horror ou vampiros é feita até que passa uma hora de filme. Pois é no final que o “western” vira terror podreira, quando os personagens inventam de parar no Titty Twister, um bordel na fronteira mexicana – aqui chamado “La Tetilla del Diablo“, mas com o velho aviso “Open from dusk till dawn” (Aberto do crepúsculo até o amanhecer).

A grande novidade é que esta sequência é, na verdade, uma “prequel”, ou seja, conta uma história anterior à das duas partes anteriores. Para criar um vínculo com o original, descobrimos que a história pretende contar a origem da vampirona Satánico Pandemonium, interpretada pela escultural Salma Hayek na primeira aventura e infelizmente morta por George Clooney, que colocou um fim à sua carreira de chupadora de sangue derrubando-lhe um lustre na cabeça.

Este é o toque de Robert Rodriguez no filme: o argumento e a ideia de contar a origem da sexy vampira vieram dele, e o roteirista, Álvaro Rodriguez, é seu primo. Nota-se a influência de Robert em cada cena do filme, e ele certamente deve ter dado seus palpites no trabalho do parente. Mas a fotografia, os enquadramentos e os tiroteios prestam homenagem a um outro diretor, o genialSergio Leone (de clássicos como Era Uma Vez no Oeste e Por um Punhado de Dólares).

Um Drink no Inferno 3 se passa no México do século 19. As primeiras tomadas realmente lembram o Robert Rodriguez da trilogia El Mariachi: a câmera passeia por uma vila mexicana pobre, por uma velha igrejinha em ruínas, e dando closes na cara bizarra dos habitantes da região, com seus bigodões, seus sombreros e suas bocas desdentadas.

O letreiro inicial explica que o escritor americano Ambrose Bierce, famoso por escrever contos e livros de horror, foi ao México tentar juntar-se aos revolucionários liderados por Pancho Villa – isso é histórico, não é invenção. Segundo os livros de história “oficiais“, Bierce desapareceu na fronteira do México, morto por bandidos ou pelos próprios homens de Villa, quem sabe? Mas o roteiro deUm Drink no Inferno 3 tenta dar uma “versão trash” do desaparecimento do escritor, que é no mínimo curiosa e original.

Quem gosta daqueles filmes onde é impossível levar qualquer coisa a sério não pode perder Um Drink no Inferno 3, que, por outro lado, será pavoroso para quem procura um filme sério e assustador.

A produção ainda merece uma medalha por ter conseguido reunir o elenco mais maluco e diferente já visto em uma produção cinematográfica. Temos, por exemplo, o italiano Marco Leonardi, que até então caracterizava-se por papéis “sérios” em filmes europeus ou mexicanos, tipo Cinema Paradiso e Como Água para Chocolate (mas estrelou um filme do italiano Dario Argento,Síndrome de Stendhal). Temos também Temuera Morrison, da Nova Zelândia, outro ator respeitado em filmes “sérios“, como O Amor e a Fúria (e recentemente está na “nova” trilogia Star Wars, como Jango Fett). Temos ainda a brasileira Sonia Braga, provavelmente a maior surpresa do filme: falando inglês, num papel assumidamente trash, onde beija homens e mulheres, não recusando nem mesmo a maquiagem de vampirona em determinada cena!

Pena que o elenco não inclua a belíssima Salma Hayek, já que a personagem Esmeralda será a futura Satánico Pandemonium, a vampira interpretada por Salma no filme original.

Reprodução: Boca do Inferno

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1 comentário em [Especial] Trilogia Um Drink no Inferno

  1. André Souza // 24/05/2016 às 15:37 // Responder

    CAracaaaa Não sabia que tinha o 2 e o 3 Rodrigo! e para minha surpresa Sônia Braga! carambaaaa! excelente texto cara! adorei!

    Curtir

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