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[Matéria] Helena Bonham Carter faz ensaio sobre a loucura em ‘Alice através do espelho’

Não é que ela seja exatamente uma Rainha Vermelha. Mas a atriz britânica Helena Bonham Carter, 50 anos nesta quinta-feira, inicia a conversa com uma sequência de ordens: “Meus filhos me pediram para mostrar como seria meu dia. Vou tirar uma foto sua, depois gravamos um vídeo. Diz seu nome, sobrenome e país. Não esquece a ordem!”. Mas o cacoete monárquico, de volta no filme “Alice através do espelho”, em que vive pela segunda vez a personagem inspirada na ficção de Lewis Carroll, desaparece logo após o derradeiro clique feito sob encomenda para Billy, 12, e Nell, 8, seus rebentos com o diretor americano Tim Burton, de quem se separou em 2014, após 13 anos de parceria e seis longas.

A nova “Alice”, que estreia também nesta quinta, é uma sequência do sucesso de Burton que rendeu mais de US$ 1 bilhão mundo afora, em 2010. Com orçamento estimado em US$ 170 milhões, o novo filme conta na direção com o não menos excêntrico inglês James Bobin, responsável pela criação, com Sacha Baron Cohen, dos personagens Borat, Ali G e Bruno.

No elenco, além de Bonham Carter, retornam Mia Wasikowska (Alice), Johnny Depp (Chapeleiro Maluco) e Anne Hathaway (Rainha Branca). A pitada a mais de comédia é garantida tanto pela presença de Baron Cohen na pele de um desengonçado Tempo quanto pela decisão de revelar, com enorme liberdade criativa, as origens dos personagens de Carroll. Bonham Carter, que diz ter um fascínio especial pela investigação da loucura na arte, conversou com O GLOBO em um quarto de hotel em West Hollywood.

Foi diferente trabalhar desta vez em “Alice”, sem Tim Burton?

Muito diferente. Ninguém esperava o sucesso do primeiro filme, e Tim deixou claro que não dirigiria uma sequência. Mas foi ele, que assina a produção, quem bateu o martelo em relação ao James (Bobin). Tim e James são duas figuraças, mas bem diferentes. O James vem ao set sempre com um look diferente, tudo muito bem pensado. Tim sempre foi um diretor minimalista em termos de comunicação. Ele fala pouco. Na vida também, aliás (risos). James fala mais, vem claramente de um histórico de comédia, e ele e o Sacha (Baron Cohen) trabalham como o Tim e o Johnnie (Depp), basta um olhar para o outro e pronto, a cena acontece. James e Tim são, também, profissionais muito educados no set. Bem, o Tim nem tanto assim comigo, mas isso é compreensível (risos).

Johnny Depp é o padrinho dos seus filhos. Ele é presente na vida deles?

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É! Quer dizer, não (risos). Ele é ótimo quando está por perto, mas Johnny viaja mundo afora o tempo todo. Quando está conosco, é claro, a atenção é toda dada aos meninos. Billy achava estranho Johnny fazer sempre personagens com cores tão vivas. Ele se assustava com o Chapeleiro e o Willy Wonka. Agora ele fica na dele, esperando o Johnny tirar a maquiagem e virar, bem, o dindinho dele.

Em “Alice através do espelho”, finalmente descobrimos o porquê de a Rainha ser tão sanguinária…

Este filme gira em torno dos personagens que circundam Alice, tem muito mais Rainha, tem muito mais Chapeleiro. Amo a Rainha, não tem como você errar com uma personagem que no fundo é uma criança e tem um cabeção, né? (risos) Ela quer cortar as cabeças das pessoas porque se sente inferior, por conta de seu enorme crânio, que vê como uma deficiência física. É como na vida, as pessoas não têm muita consciência de si mesmas e precisam diminuir o outro para colocá-las no mesmo nível que imaginam ser o delas.

Você já teve problemas com a sua aparência?

Sempre achei que tinha pernas e seios feios. E nunca quis virar uma mulher. Demorou muito para eu virar uma mulher!

Como assim, quando é que você virou uma mulher?

No ano passado! (risos) Pelo menos é como me sinto.

Atuar ajudou você a seguir menina?

Pode ter sido isso, sim. Bebês andam e falam em momentos diferentes uns dos outros. Já eu fui mais lenta em virar adulta, morei com meus pais até os meus 30 e poucos anos. Estou chegando aos 50 e finalmente deixando a infância para trás (risos).

Sua Rainha tem uma relação especialíssima com o Tempo. É difícil envelhecer?

Sim, mas não faço da chegada aos 50 um drama, até porque não há outra opção, e quando falo em ser sempre menina não estou me referindo a disfarçar minhas rugas. Tenho uma enorme preguiça com essa obsessão de se esconder marcas da vida. Ora, fiz tanto em meio século! Quero mais é celebrar isso. Não estou falando só do trabalho, mas do que de fato importa. Definitivamente, não fico deprimida com o envelhecer.

Você começa a filmar neste mês o novo filme do diretor dinamarquês Bille August, baseado na história de Eleanor Riese…

Sim, e da relação dela com sua advogada (Hilary Swank). Juntas, elas vão à Suprema Corte da Califórnia pelo direito de pacientes internados em hospitais psiquiátricos de não serem medicados à força. É uma história fantástica.

É meio “Erin Brockovich”?

Sim, Davi contra Golias. Eleanor sofreu com um suave retardo mental e foi diagnosticada com esquizofrenia do tipo paranoica. Ela sabia que estava tomando mais drogas do que precisava e morreu por conta dos efeitos colaterais. Ela lutou pelo direito dos pacientes psiquiátricos de terem voz sobre o próprio tratamento médico. Vi de perto, muitas vezes, na ficção e na vida real, a loucura, as doenças da mente. E quero interpretar a personagem e não a doença, pois é fácil cair na caricatura quando se trata de loucura.
Você se tornou uma especialista em tratar da loucura na tela, é uma coincidência?

Não é, não. Mais do que rotular o outro de “maluco”, apontar eventuais excentricidades, o que me interessa é identificar a capacidade de cada um de mergulhar em nossas possíveis insanidades. Mais do que ler um roteiro e dizer “opa, olha outra doidinha para eu fazer!”, tento identificar no personagem características que eu mesma poderia ter, mas decidi não desenvolvê-las em minha vida real. Na ficção, posso lidar com elas.

E quando é que você percebeu que tinha, digamos, um look excêntrico e só seu?

Sempre gostei de figurinos e da ideia de que uma peça de vestuário pode mudar de fato o que você sente por dentro. Infelizmente, claro, algumas vezes o visual não sai exatamente como eu tinha imaginado (risos), e aí o jeito é tentar não levar tão a sério as críticas todas. Leio tudo e me divirto muito com o que escrevem sobre minhas escolhas estéticas.

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Reprodução Site O Globo

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