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[Especial] A Rainha Diaba (1974)

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Em um maravilhoso salto, Antônio Carlos da Fontoura desvincula-se dos discursos engajados dos Movimentos de Cinema que pairavam sobre os anos 60, e lança-se em vôo livre pelos rumos do cinema de gênero, produzindo uma obra-prima inspirada em Madame Satã, uma das figuras mais célebres do submundo carioca que, marginal por excelência, brilhou nos anos 30; como brilha neste filme.

“A Rainha Diaba(1974)” é uma dessas pérolas que só poderiam ter sido feitas nos anos 70, quando parte do cinema nacional andava lado a lado com o espírito violento e pessimista que tomava conta do cinema americano na mesma época, e ao mesmo tempo apresentava um retrato das contradições sociais de nosso país; ainda que não assumisse o compromisso de fazê-lo.

O Brasil dos anos 70 é um país que ainda enfrentava uma ditadura, e com ela persistia um conservadorismo que se chocava com as revoluções culturais disseminadas nos anos 60; período que assistia a um esgotamento dos movimentos esquerdistas e em que a censura agia em nome da moral e dos bons costumes, da preservação dos valores da família e da igreja. Um país que presenciava a intensificação da desigualdade social , resultado de um processo de desenvolvimento industrial e do crescimento das grandes cidades, do êxodo rural, e como consequência, o inchaço urbano , a proliferação das favelas e das periferias que passaram a ocupar mais e mais o nosso cenário. Enquanto isso, os jornais aclamavam o “milagre econômico” e as propagandas do governo anunciavam efusivas que “ninguém segura esse país”. É esse o país que vemos em “Rainha Diaba” e em boa parte do cinema brasileiro da década de 70, abordado de maneira direta e crua; sem as ideologias e os discursos do cinema que se diz crítico e consciente.

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A trajetória seguida por Antônio Carlos da Fontoura não foi algo exclusivo do diretor, mas sim, como eu já disse, algo típico dos anos 70. Outros cineastas que de uma forma ou de outra estiveram ligados com o Cinema Novo na década anterior, fizeram opções semelhantes, afastando-se do intelectualismo e da erudição e aproximando-se do popular, fazendo filmes policiais ou de gângsters. Alguns exemplos são Antônio Calmon, que antes de virar o rei dos policias(“Terror e Êxtase”, “Paranóia”, “Eu Matei Lucio Flávio”) trabalhou como assistente em clássicos como “Terra em Transe(1967)” e “A Grande Cidade(1966)”; Walter Lima Jr, que depois do tropicalismo de “Brasil Ano 2000(1969)”, dirigiu o excelente thriller policial “A Lira do Delírio(1978)”; e até Nelson Pereira dos Santos, o primeiro a utilizar a influência do neorrealismo italiano com “Rio 40 Graus(1955)”, escola para os cinemanovistas, andou se enveredando por outros caminhos com “O Amuleto de Ogum(1974)”.

A diferença entre o diretor de “Rainha Diaba” e os citados acima, é que, nem mesmo nos anos 60, em que todos os que faziam cinema eram coagidos a tratar das questões sociais, Fontoura sentia a necessidade de pertencer à “patota” dos cineastas engajados. O filme de 1974 não é, portanto, um passo tão inesperado do diretor , quanto eu quis sugerir no inicio deste texto; é antes uma radicalização das pretensões do mesmo, de manter-se distante de um modo muito específico de fazer cinema, que os anos 60 parecia impor.

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No filme de 74, Fontoura recorre a Plínio Marcos , escritor de teatro, que teve muitas de suas peças adaptadas para o cinema, rendendo obras-primas como “Navalha na Carne(1969)”, “Dois Perdida numa Noite Suja(1971)” e “Barra Pesada(1977)”; e que em “Rainha Diaba” é responsável pelo argumento. O escritor sempre tratou dos excluídos em suas histórias, dos párias sociais; e suas peças tem um tom amargo, com os personagens comportando-se quase como animais selvagens, ou pior que isso, como vermes parasitas, dispostos a derrubar o próximo; caso isso seja necessário para obterem algum benefício. Ao invés de um mundo em que os que nada têm voltam-se contra os que tem, os personagens do mundo de Plínio Marcos são um bando de miseráveis, debatendo-se uns com os outros, disputando pelo último osso.

Diaba(Milton Gonçalves) é um personagem assumidamente inspirado em João Francisco dos Santos, malandro carioca, homossexual, lutador de capoeira, arruaceiro, com passagem pela polícia, que ficou famoso ao desfilar nos carnavais com uma fantasia que ele mesmo apelidou de Madame Satã. Preto, gay e pobre, Diaba tem todos os motivos para ser marginalizado. Mas ganha ares de anti-herói e em seu universo particular, dentro dos subúrbios cariocas e arredores da Lapa, aonde a Lei não chega, constrói seu reinado. Vira chefe do tráfico, a boca vira seu reino, onde é venerado por um séquito de bichas prontas para atacar qualquer um que ameace o trono da “rainha”.
Contudo, apesar da fidelidade de seu “exército gay”, Diaba está cercado por parceiros gananciosos que o temem mas querem vê-la pelas costas , desejosos em assumir a liderança de sua gangue, e tomar conta da Boca. Bereco(Stepan Necessian) é bandido peixe pequeno, sustentado por cantora de boate(Odete Lara), que é arranjado para acobertar uma sujeira de um dos pupilos da Diaba, e ir para a prisão no lugar dele; mas logo será tentado por Zeca Catitu(Nelson Xavier) a unir-se aos outros membros do grupo para participar de um golpe para derrubar a chefe da Boca.
O problema é que Diaba não é alvo fácil: tem segurança, tem “seus súditos”, sabe engrossar a voz quando preciso, e assusta apenas com seu olhar intimidador, além de lançar mão de autêntico arsenal de técnicas de tortura. E então , depois de arquitetado, e com Diaba já pressentindo o perigo, temos um desfecho apoteótico, com o plano da conspiração contra Diaba colocado em prática; um dos momentos mais marcantes de nosso cinema.
Já ouvi comparações entre “Rainha Diaba” e Tarantino, e acho a comparação cabível, visto que o filme possui uma trama criminal rocambolesca (a exemplo da genial sequência final) e tem uma estética(fotografia com cores fortes) que remete –não sei se propositalmente– aos blackexploitations , uma das influências básicas do diretor de “Pulp Fiction(1994)”.

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Merecem destaque ainda a trilha sonora jazzística, que capta toda a violência da trama ,e é composta por Jards Macalé, grande músico que já fizera trilhas para Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha. E é claro, deve ser mencionado o sensacional elenco, que reúne os maiores atores da época: Milton Gonçalves, irretocável no papel principal; Odete Lara, diva do cinema brasileiro, que chegou a casar-se com Fontoura, mas na época da gravação deste filme já havia se separado dele; Wilson Grey, onipresente no nosso cinema, maior represente da malandragem carioca; e ainda Nelson Xavier e Stepan Necessian , que colecionaram ótimos papéis na década de 70, e que já trabalharam em outras adaptações para o cinema de textos de Plínio Marcos.

Diante de minha profunda admiração por “A Rainha Diaba”, e por outro clássico também dirigido por Fontoura, “Copacabana me Engana(1968)”, imaginem meu choque ao descobrir que é esse mesmo cineasta quem assume a direção de “Somos Tão Jovens(2013)”, produzida pela Globo Filmes! Não que eu seja um grande fã de Renato Russo, mas quando chegamos ao ponto de ler uma declaração do ator que interpreta o protagonista do filme, dizendo que o roteiro evita tocar na questão da homossexualidade de Renato Russo, ou mostrá-lo beijando outros caras, pois vivemos em uma sociedade conservadora que “talvez não esteja preparada para uma cena destas”, percebemos quão crítica é a situação. Eu sei também que criticar a Globo Filmes já é algo muito batido; e acreditar que o principal problema do cinema do brasileiro seja a produtora afiliada à Rede Globo, a meu ver, é inocência.

Igualmente inocente seria recorrer a saudosismos, quando é sabido que –como eu mesmo descrevi– as coisas não eram nada fáceis, pelo menos para a maioria da população desta época, e mesmo o cinema convivia com impasses do qual tenta se desvincular até hoje.
Podemos observar, porém , neste período, com uma frequência muito maior do que vemos atualmente, produções que foram muito bem sucedidas em livrar-se dos moralismos, das demagogias, e do engajamento fajuto que o cinema atual insiste em nos vender.Com toda a ênfase negativa que a palavra “vender” merece.

Maravilhas Contemporâneas.

 

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