Confira!

[Especial Cinema Italiano] Malèna (2000)

 

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No início, Malena faz lembrar, e muito, Houve uma Vez um Verão/Summer of ’42, de Robert Mulligan. Como o filme de 1971 que virou um cult, um novo clássico, é uma história do rito passagem da infância para a adolescência, da inocência para a vida mais madura. Também como o americano, é a história da fascinação de um garoto por uma linda mulher mais velha. E, também como o outro, passa-se no início dos anos 40, com a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo. Como o outro, o filme abre com a voz em off do protagonista da história, agora já adulto, narrando o que aconteceu.

“Eu tinha 12 anos meio”, diz o narrador, “e foi num dia do fim da primavera de 1940 que a vi pela primeira vez. Me lembro muito bem porque naquela tarde, enquanto Mussolini declarava guerra à França e à Grã-Bretanha, ganhei minha primeira bicicleta.”

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O texto é ótimo, mas imagens são ainda melhores. O início do filme de Tornatore, os primeiros dez minutos são extraordinários, sensacionais. Vemos um caminhão rodando nas pequenas ruas de uma cidadezinha da Sicília, Castelcutò, anunciando que Il Duce faria um discurso à nação às 17 horas, e pedindo a todos que liguem seus rádios. Só depois entra a voz em off do narrador dizendo aquelas duas belas frases, e vemos o protagonista, Renato Amoroso (Giuseppe Sulfaro, um garotinho em seu primeiro trabalho no cinema, excelente), ganhando sua bicicleta, e depois correndo com ela até um grupo de garotos reunidos perto do mar. Entrecortadas com essas cenas, vemos rapidíssimas tomadas, em close, de uma mulher que se veste. Há uma rapidíssima tomada dos pés descalços da mulher, com meias de nylon; depois outra rapidíssima, também em close, da mulher acertando a meia na liga; depois outra, igualmente rapidíssima e em close, da mão da mulher desligando o rádio. Renato está sendo admitido na confraria dos garotos, e os garotos estão esperando um grande acontecimento – estão esperando Malèna sair de casa e caminhar até o centrinho de Castelcutò.

E então a vemos pela primeira vez de corpo inteiro. Mamma mia, e que corpo, e que rosto, que monumento – Michelangelo gostaria de ter esculpido um rosto assim, um corpo assim. Parla, Bellucci!

Malèna caminha, os meninos olham; close rapidíssimo da saia de Malèna, para vermos a pequena protuberância da fivela da liga que segura a meia de nylon. Renato olha para baixo, a câmara mostra a calça curta de Renato e o pauzinho dele fica duro.

Os meninos correm por um atalho, para ver Malèna de novo, “a mais bela bunda de Castelcutò”, como diz um deles. A câmara mostra em close o rosto de Renato – mostrará diversas vezes, ao longo de todo o filme –, e percebemos que o que para os outros meninos é farra, é folia, para nosso protagonista é coisa séria. Renato está perdidamente apaixonado por Malèna, a mulher mais bela de Castelcutò, tão bela, tão espantosamente bela, que todos param e se viram para vê-la, os homens babando de desejo, as mulheres babando de inveja, ódio.

Malèna é casada com Nino Scordia (Gaetano Aronica), um rapaz que, pouco após o casamento, é recrutado pelo exército e enviado para a guerra no Norte da África – o espectador sequer o vê nesse início de filme. O pai de Malèna, o professor Bonsignore (Pietro Notarianni, ótimo, num papel pequeno mas importante), dá aula de Latim, e é surdo. Na classe de Renato, um garoto mais gaiato ergue o braço, como se fosse pedir licença para ir ao banheiro, e diz:

– “Professor, posso comer sua filha?”

E o pobre e surdo professor: – “Vá, mas não demore” – e a classe estoura na gargalhada.

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Renato segue os passos de Malèna sempre que pode; até mata aula para segui-la de longe. Depois vai se arriscando mais, vai se aproximando mais e mais da casa dela, acaba por observá-la através de buracos nas janelas. Só pensa nela; vai atrás do disco com a canção que ouviu através da janela da casa dela, “Ma l’amore no”; sonha acordado com ela; masturba-se mil vezes pensando nela.
Como em Cinema Paradiso, de 1988, que deu a ele fama internacional, Giuseppe Tornatore usa em Malena seu amor pelo cinema. Para mostrar os devaneios de Renato, cria filmetes em preto-e-branco em que ela é a heroína e ele, o herói. Há uma cena em que ele é o Tarzan, ela é Jane. Há uma seqüência de faroeste, em que ele atira contra os índios na diligência enquanto ela o beija. Há uma seqüência de filme histórico que os franceses chamam de péplum (não conheço expressão em português para designar aquelas produções sobre Grécia antiga, Roma antiga), em que ele é o gladiador, ela é uma princesa que, da tribuna de honra, lânguida, põe o indicador para baixo.
Mas a mais bela seqüência de devaneio de Renato vem bem no início do filme, sem ser anunciada, e em cores. Ele vai com sua bicicleta até diante da casa de Malèna, e pára do outro lado da rua. Ela abre a porta, olha para ele, o chama com um gesto. Veste-se com um négligé leve, esvoaçante. Pede que ele vá comprar cigarros, rola duas moedas para ele, ele as deixa cair, abaixa-se para pegá-las no chão – e a câmara, que vira os olhos dele, vai subindo pelas pernas dela; o négligé está aberto, a câmara sobe pelas coxas dela.
Aleluia!
Durante todo o filme, a câmara de Tornatore – aliás uma câmara maravilhosa, que está sempre se movendo em suaves travellings – baba pela beleza do rosto e do corpo de La Bellucci. É uma câmara tão apaixonada que faz lembrar a de Domingos Oliveira babando por Leila Diniz em Todas as Mulheres do Mundo.
Todo o início do filme, os primeiros 20, 25 minutos são tão fascinantes, que tornarão um pouco difícil de se assimilar a imensa mudança de tom que virá depois. E o clima de devaneios do garoto apaixonado deixa o espectador em dúvida quando começam a surgir novos elementos na história, em seqüências de aberto tom de farsa, muito distante da realidade – como, por exemplo, a seqüência do tribunal, em que o advogado Centorbi (Gilberto Idonea) faz um discurso gongórico, empolado, caricatural. Confesso que tive algumas dúvidas em algumas seqüências – isso aqui aconteceu mesmo, ou é mais um dos devaneios de Renato?

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Cinema Paradiso havia sido um sucesso grande mais, de público e crítica. Ganhou o Oscar e o Bafta de melhor filme estrangeiro, e um total de 20 prêmios internacionais, fora outras 12 indicações. Virou cult imediato, instantâneo, é objeto de adoração.

Os americanos botaram dinheiro nas mãos de Tornatore para fazer Malena; os irmãos Bob e Harvey Weinstein, da Miramax, naquela época – 2000 – por cima da carne seca, co-responsáveis por vários êxitos nas bilheterias americanas, investiram muito na produção. Talvez isso tenha atrapalhado um tanto o filme. Na sua segunda parte, a que é um grande drama, Malena vira uma superprodução retratando a pequena cidade da Sicília ocupada pelos fascistas de Mussolini e pelos nazistas de Hitler, bombardeada pelos americanos, depois invadida, ocupada e liberada das tropas do Eixo pelos americanos.
Para mim, pessoalmente, o filme acabou virando uma mélange, um melê estranho, esquisito. Perdeu a oportunidade de ser um belo filme.
Não que seja um filme ruim, de forma alguma. Merece ser visto, sem dúvida.

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Antes de dar uma olhada em outras opiniões, registro que Castelcutò, a pequena cidade siciliana onde vivem Renato e Malèna, não existe, é uma ficção criada pelo siciliano Giuseppe Tornatore, nascido em Palermo, em 1956. O filme foi rodado em Siracusa e Messina, conforme o iMDB e os próprios créditos finais.

Outro registro necessário é que a trilha sonora do filme é de Ennio Morricone. O grande mestre, um anti-Dorival Caymmi, um compositor prolífico, que trabalha como se o dia tivesse 48 horas e o ano, 600 dias, fez a trilha de vários filmes de Tornatore; o tema principal de Cinema Paradiso virou um clássico; são de Morricone também as trilhas de Estamos Todos Bem, de 1990, de Uma Simples Formalidade, de 1994, de O Homem das Estrelas, de 1995, de A Desconhecida, de 2006.
E trilha sonora de Morricone não tem erro algum, é qualidade garantida, não precisa ter dinheiro de volta. Mas é interessante que os temas compostos para Malena – belos, como sempre – não constam de vários dos discos do mestre e maestro.

O filme teve três prêmios e um total de 18 indicações, inclusive duas ao Oscar, para a fotografia de Lajos Koltai e para a trilha sonora de Morricone. Passou no Festival de Berlim, foi indicado ao Bafta de melhor filme estrangeiro, foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e melhor trilha sonora.
Aliás, foi a quinta vez que Ennio Morricone teve indicação ao Oscar de melhor trilha sonora, e a quinta vez em que perdeu. As outras quatro foram por Days of Heaven, de 1978, A Missão, de 1986, Os Intocáveis, de 1987, e Bugsy, de 1991. As trilhas de Era uma Vez no Oeste e Era uma Vez na América, duas excepcionais, extraordinárias obras-primas, sequer foram indicadas ao Oscar. Em 2007 ele ganhou uma estatueta honorária “por sua magníficas e multifacetadas contribuições à arte da música para filmes”. E o reconhecimento veio finalmente em 2016 pelo filme Os Oito Odiados de Quentin Tarantino.

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A canção que Malèna escuta (e Renato vai atrás na loja de discos, e passa a ouvir também), “Ma l’amore no”, de d’Anzi e Galdieri, de 1942, é interpretada por Lina Termini. “Acompanhou pelo rádio o desembarque dos aliados, a queda do fascismo, o governo Badoglio, o armistício, a noite de 8 de setembro.”

O filme foi um grande sucesso na Europa, e contribuiu para estabelecer Monica Bellucci como símbolo sexual internacional. Nos Estados Unidos, no entanto, não emplacou nas bilheterias, talvez por causa da “severíssima censura” que retirou numerosas cenas de nudez.

50 Anos de Filmes

 

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